Nada como antes na família margarina. Mas anúncios insistem no ‘modelito’

       Fato 1: Fernanda, oito anos, fez a seguinte observação para a mãe: “Na minha sala de aula, só eu e mais quatro amigos temos família como a nossa”. Ela se referia ao fato de ter pais morando na mesma casa, além da irmã, e que sempre tentam fazer refeições juntos, pelo menos, à noite. Enfim, uma ‘família padrão’ pelos códigos vigentes, tão habitualmente explorados nas propagandas de margarina. Em tempo, na classe de Fernanda estudam 17 crianças.

      Fato 2: Pelo retrato traçado para as famílias brasileiras pelos dados mais recentes do IBGE, casais tradicionais com filhos deixaram de ser o modelo dominante. Somam agora 49,9% total de famílias no País. Outros arranjos já representam 50,1%. Há mães com filhos, filhos só com pais, casais sem filhos e famílias homoafetivas. Nessa última categoria, o IBGE registra 60 mil famílias, sendo que 53,8% desses lares são compostos por casais femininos.

      É fato que o arranjo familiar mudou. E muito. A vida se impõe à cena lúdica usada na propaganda, mas os anúncios insistem em modelitos de pais felizes e sorridentes, quase sempre cercados por duas crianças que correm felizes entre ondas, nos parques verdejantes ou passam margarina no pão pela manhã. A linguagem adotada pela propaganda precisa ser tão irreal. Ou, pelo menos, boa parte dela.

      O descompasso entre a vida e a fantasia talvez, em parte, responda o porquê de a publicidade perder tanto de seu encanto em tempos de redes sociais,  em que dominam as mídias segmentadas e a infinita capacidade de todo o cidadão também ser um canal de comunicação capaz de difundir informação.

       Os dados divulgados pelo jornal inglês Financial Times, na semana passada, apontavam a ineficiência de campanhas veiculadas pela televisão  por não atingirem o seu público-alvo. Com estudo da empresa Simulmedia, a partir de levantamentos dos institutos Nielsen e Kantar Media, ficou demonstrado casos do mercado americano de propaganda (o mais rico do mundo em termos de investimentos em marketing), em que 75% dos comerciais veiculados por anunciantes em emissoras de TV eram assistidos por apenas 20% da audiência. Ou seja, isso significa muito dinheiro gasto à toa pelas empresas. 

       Independentemente de as condições impostas pela presença das novas mídias online, que estão provocando novos padrões de comportamento e consumo de informação e entretenimento, há outros fatores que, talvez, pesem nessa falta de eficiência das mensagens publicitárias. Um deles, com certeza, é a necessidade de as peças criadas se comunicarem com maiorias, como reza o código da comunicação de massa. Para atingir muitos, apela-se a simplificações que já não funcionam mais. As famílias tradicionais de tempos atrás, não cabem mais nessa referência. Os tempos mudaram. As relações também.

      A família feliz da margarina, que ainda impera no Brasil, exibe falta de sintonia entre mundo real e propaganda. A maioria das famílias não vive mais desse jeito, como registra com espanto a pequena Fernanda. Mais que isso, já dá até para vender viagem à Disney para casais de mães. O vídeo abaixo é a prova disso:

Propaganda na era da “pós-interrupção” depende de mérito próprio

           

      Conversar com o publicitário Marcelo Tripoli dá a sensação de se estar plugado na tomada. E ele desacelerou. Era bem pior há três anos. Viciado em tudo que diz respeito ao universo digital, ele mantém uma coluna na Exame Online Loading com Marcelo Tripoli,onde vende seu peixe, já que é fundador e presidente da agência iThink. Faz por puro prazer e, lógico, para se manter no circuito de evidência. Na era da conexão, dono de agência não pode se encastelar.

      Embora pairem incertezas sobre onde e como cativar audiências para anunciantes no emaranhado das mídias online onde todos estão dispersivos, Tripoli não tem dúvida que o negócio da propaganda vive a era da “pós-interrupção”. Publicitário é bom de sacada e ele não fica devendo nada a seus pares. Em geral, mudam nomes de velhas práticas apenas para rejuvenescer a tática. Algo na linha do botox básico  que dá um up temporário na aparência. Coisa de publicitário, como dizem os empresários.

       O que seria então a comunicação “pós-interrupção”? Simples. A mensagem publicitária é a que tem eco, porque é compartilhada espontaneamente. Acontece quando o consumidor assiste o comercial no YouTube, e não no intervalo comercial na hora da novela. Nesse momento, ele troca de canal, ou aproveita para postar um Twitter, ou criticar a cena no Facebook.

      A forma convencional de aferir audiência, como lembra Tripoli, é por amostragem. Não pega a dispersão de quem está navegando em qualquer aparelho eletrônico ou celular.  A se considerar a onda crescente de smartphones no Brasil, até mesmo entre as classes populares, as ponderações de Tripoli merecem atenção. Vivemos um tempo em que só se assiste o que se quer. Na marra, não tem mais jogo.

      Qual, então, o pulo do gato para quem quer anunciar? Nos últimos anos, no maior festival de propaganda global – o Cannes Lions, que se realiza anualmente na França ­­– o que mais se ouvia entre os participantes era a necessidade de campanhas com “engajamento” do público às marcas. A tarefa primordial dos publicitários seria arranjar formas de produzir isso com ideias criativas encantadoras. Famílias felizes, cenários deslumbrantes e modelos irretocáveis por si já não bastam. É preciso conteúdo e entretenimento.

       “A pós-interrupção pretende atrair o consumidor para algum tema ou assunto que o mobilize com alternativas, até porque, cada vez mais as audiências serão segmentadas e personalizadas”, explica Tripoli.  “Algo que só é possível com o ferramental da tecnologia existente hoje. Seria impensável anos atrás. É um marketing que dá muito mais trabalho e, lógico, tira muita gente da zona de conforto da propaganda tradicional. Aliás, este ano, em Cannes, me  senti num evento de tecnologia”.

      Lá fora, onde a tecnologia está mais esparramada, a banda larga é larga mesmo, e o modelo de comercialização de anúncios não é dominado pela televisão aberta como no Brasil, a propaganda avança nessa linha e conquista público pelo seu próprio mérito – e não à custa da intermediação de conteúdo alheio. O futuro, ao que tudo indica, será cada um no seu quadrado. Ou, segundo sua competência.

       Um exemplo explícito dessa tendência, entre inúmeros outros vindos até dos países latinos nos últimos anos, foi a vitoriosa campanha na categoria filme do Cannes Lions 2012. Produzida para a rede mexicana de fast-food Chipotle, apresenta uma mensagem de sustentabilidade. A animação tem por trilha a música The Scientist, do Coldplay, na voz do cantor country Willie Nelson. Até o momento, são 6,8 milhões de acessos no YouTube,  31 mil Likes, seis mil comentários. E, atenção, a primeira exibição do filme comercial se deu em um celular. Alguém tem dúvidas da chegada da era “pós-interrupção”? Só assiste propaganda quem quer. E quando quer. Então, tem que ser boa.

 

Em vez de anúncios em massa, uma massa mobilizada por PR

        “Tava passando e ouvi um cara, um som de violão e era Seu Jorge. Show!”, diz o rapaz. E, realmente, era um show dele, sob os Arcos da Lapa no Rio de Janeiro, numa sexta-feira à noite. Um show convocado pelas redes sociais no melhor estilo flash mob – àquelas aglomerações instantâneas para realizar uma ação inusitada. No caso, um evento patrocinado pela montadora Ford para a campanha de lançamento do  novo modelo EcoSport, totalmente repaginado. Tudo de graça e de surpresa para quem passou por ali.

       Batizado de EcoSportParade, o show de Seu Jorge foi apenas mais uma etapa do que na empresa convencionou-se chamar de “lançamento segmentado” para despertar o interesse do público antes mesmo do carro chegar às lojas. A ação se contrapõem aos grandes lançamentos que marcaram a indústria automobilística nos tempos em que a mídia tradicional era rainha, e todos os meios de comunicação eram inundados, ao mesmo tempo, por anúncios comerciais do novo carro, com fortes ações de vendas nas concessionárias.

       Na prática, a tática contempla uma significativa mudança na estratégia de marketing da megacompanhia, motivada pelo alcance das mídias sociais. A convocação para um show se dá pelos canais partilhados por todos, da página da companhia às páginas de funcionários, fornecedores e amigos dos amigos dos amigos. Com isso, há economia de custos numa ponta,  que o ganho com o burburinho espontâneo. Antes faziam um grande evento, agora, no caso da Ford, fizeram dez, mas para públicos segmentados, com bem menos investimento em mídia paga e muito, mas muito mesmo, investimento em relações públicas – ou PR, como preferem no mundo globalizado. A empresa não revela números.

        Mas a área de PR da Fordacaba de ganhar estatus de vice-presidência. Há menos de um mês, o líder da equipe de 20 pessoas internas passou a se reportar diretamente à presidência. Para atender à demanda de comunicação, o trabalho é dividido em times específicos com foco nos movimentos nas mídias sociais, nas mídias de consumo e, por fim, na mídia tradicional. Houve tempo em que a cobertura de economia do jornais e as revistas especializadas eram o principal interesse dessas empresas. Para por em campo a EcoSportParade, contaram com retaguarda das agências externas, que fazem parte do conglomerado de marketing inglês WPP que atende a Ford: a Akctuell Event Comunicação e a  Burson-Marsteller.

       A prática do “dez em um” na área de marketing da Ford não se restringe ao Brasil. A companhia tem adotado esse tipo de ação mundialmente. A atual apresentação do novo Ecosport se deu paralelamente na Índia, Tailândia e China. São os países onde a nova linha será produzida para ser vendida em 100 outros países. Após todos os eventos e desdobramentos, a área de PR estima ter atingindo 271 milhões de pessoas globalmente com a exibição do novo modelo EcoSport, agora, dizem eles, turbinado com muita tecnologia e segurança embarcada.

       Só no Brasil, por exemplo, após ação de pré-lançamento em Porto Alegre – quando o carro ficou dependurado por um guindaste e ia baixando à medida que o público curtia nas redes sociais – foram comercializados 2,5 mil unidades, em menos de uma semana no começo de julho, sem que houvesse qualquer carro nas lojas para o consumidor apreciar o que estava comprando. O sucesso tão inesperado vai virar “case de marketing” nos cursos de MBA de negócios.

       O projeto EcoSportParade no Brasil se desenvolveu em três etapas após a apresentação do novo visual do utilitário em Brasília para públicos especializados, autoridades e governo. Em abril, foi realizado um show de pré-lançamento com Carlinhos Brown, em Salvador. O evento do Seu Jorge no Rio encerrou o “lançamento segmentado”. Em Sampa, a ação de PR preparou, no estacionamento de um shopping, um jogo com dois craques do futebol - Robinho e Marcos - ao volante do carro e diante de um gol. Sim,  eles jogaram de dentro do carro e com uma bola gigante.

       Novos tempos. Novas práticas para vender carros e construir marcas. Todas as ações mencionadas aqui podem ser vistas no portal YouTube.

Comer na rua é mercado invisível e promissor no prato da WMcCann

   

Aloísio Pinto, no boteco, e Martin Montoya, no metrô Tatuapé

        Na novela das nove da Rede Globo, que parece reconquistar o perdido público AB falando das peripécias dos emergentes, comida virou assunto em tempo integral.  Uma das protagonistas é a chef de cozinha Nina que se esmera, capítulo a capítulo, produzindo pratos elaborados. Não está só entre garfos e facas. Em Avenida Brasil o vilão sem caráter Nilo só aparece em cena atrás de um prato. Ou quase, já que só faz comer e destilar maldades. Arrisco até que, nunca na história da sagrada novela nacional, o cenário da cozinha foi tão explorado.

        Comer é um prazer imediato, mais do que uma necessidade de sobrevivência. E, se o mercado do público AB tem o universo de consumo no ramo bem mapeado (quem não sabe o nome do restaurante chiquinho que acabou de abrir às portas?), o mesmo não acontece com os emergentes. Eles ainda comem de pé em barriquinhas, quiosque ou até na rabeira de uma camionete. Então, para chamar atenção de seus clientes e quiçá atrair outros, a agência de propaganda WMcCann decidiu produzir uma pesquisa inédita na forma e no conteúdo: foi rastrear hábitos de consumo da periferia.

Bem nascidos na perifa

        Sem medo de comer macarrão com salsicha, ovo colorido e frituras de toda ordem, seja na saída de estação de trem, do metrô ou em praças públicas a céu aberto, a rede global McCann pôs nas ruas de 18 países latino-americanos 2.500 funcionários (700 no Brasil) para encarar a tarefa de decifrar esse consumidor. Martin Montoya, presidente da WMcCann, aqui no Brasil, encarou a tarefa na saída do metrô Tatuapé, onde fotografou ambulantes que montam suas mesas de café da manhã para passantes, às 6 horas da manhã.

      Para dar a dimensão do universo pesquisado, a rede de agências fez  suas próprias contas e concluiu que consumidor que se alimenta na rua movimenta anualmente cerca de US$ 127 bilhões na América Latina (R$ 9,2 bilhões no Brasil). Nada mal, embora o mundo das marcas –  àquelas que as agências tanto reverenciam  – não explore esse potencial. Elas simplesmente não são retratadas ali. Consumidor popular que se alimenta na rua e em pé não se importa com grife.

     “O conceito de marca não existe. Já viu coxinha de rua com assinatura?”, brinca Aloísio Pinto, vice-presidente de Planejamento da WMcCann. “A rua é o espaço da compensação, do imediato, enquanto a comida de casa, o da celebração, da reunião da família”. Diante disso, Aloísio define esse universo como sendo um “mercado invisível e promissor”. É composto no Brasil por gastos de R$ 10,00 por refeição, feita três vezes por semana na rua. Para um universo de quase 63 milhões de pessoas (a tal classe emergente), resulta nos tais R$ 9,2 bilhões só no Brasil.

       Estabelecido o tamanho do que se pretendia conhecer no detalhe, a turma da McCann na América Latina saiu às ruas no mesmo dia, munida de perguntas similares para mapear a situação desses consumidores. Do presidente ao atendente, todos se igualaram no balcão do pastel das periferias nas cidades selecionadas.

        Lógico, que constataram diferenças entre mexicanos, porto-riquenhos, chilenos e brasileiros. Mas também identificaram pontos comuns na hora de avaliar achados nessa vasta pesquisa. Feita a contabilidade das descobertas, os publicitários estão agora em fase de exibí-las aos seus clientes. Foi uma tarefa de fôlego, mas que dá charme à abordagem dos clientes, além de tirar o ranço da indústria de pesquisa. Com os funcionários em campo, pondo a mão na massa, a pesquisa ganha apelo extra para além da mesmice no meio das pesquisas tradicionais.

Truth About Street

        A iniciativa é parte das ações desenhadas pela “unidade de inteligência” da rede global McCann, que desenvolveu o projeto “Truth About Street” no qual sugere um contato direto entre os seus funcionários e a realidade das ruas. Agências vivem de vender ideias inéditas aos clientes. Pôr a turma da rua atrás de insights é parte do show.

Escambo é revisitado na era da comunicação digital

Tatianna Oliva

         A história não é recente, mas sintetiza com maestria o tom que o negócio de parcerias entre marcas ganhou quando passou a ser amarrado com profissionalismo. Foi no carnaval de 2003. De um lado estava a cervejaria Ambev, dona do camarote mais badalado do Rio. De outro, a confecção de moda praia Rosa Chá, ávida por badalar entre os convidados da Brahma produzindo as camisestas de acesso ao espaço. No meio, a proposta de custos menores para ambas se exibirem entre a seleta plateia. Funcionou.

        Por trás da proposta, a inquieta Tatianna Oliva que, na época, não tinha a mínima ideia que àquela iniciativa renderia, alguns anos depois, uma empresa, a Cross Networking.  Hoje, com quatro anos de vida e 25 funcionários, representa a melhor rentabilidade versus faturamento do grupo Holding Clube, capitaneado pelo marido, o empresário José Victor Oliva. Não é pouca coisa para um trabalho no melhor estilo taylor made. Nada na Cross pode ser feito de baciada. É tudo caso a caso.

        “Parcerias bem sucedidas têm que entender os dois lados”, diz Tati, como todos a chamam. “Ninguém pode ir com arrogância, se achando em uma posição melhor. As possibilidades em jogo devem sempre contemplar o princípio de como as marcas se comportam no ambiente pretendido. Requer estudo da situação e planejamento detalhado para que o resultado seja satisfatório”.  Trocando em miúdos, não adianta juntar alhos com bugalhos só para economizar na divisão das contas. Tem de fazer sentido.

Efeito da era digital

        Lidar com um mercado extremamente segmentado está na pauta de agências prestadoras de serviços de marketing  há algum tempo. A demanda se intensificou como decorrência de mais um dos fenômenos da era digital, onde a competição pela atenção da audiência fragmentada tortura profissionais de marketing na sua função de levar anunciantes aonde o consumidor está. Com a mesma verba de propaganda, precisam programar ações multiplataformas. Nesse ambiente, o velho e bom escambo, lógico que com alguma dose de sofisticação e criatividade, ganha mercado, afinal as tais parcerias barateiem os investimentos em marketing.

         Foi nesse ambiente que a Cross prosperou. As montagens criadas por Tati Oliva e equipe promovem, em alguns casos, reduções de gastos com patrocínio de até 50%. Tudo dependendo das propostas operadas na cadeia de envolvimento que se constrõem no processo. No portfólio da empresa há de tudo, já que os clientes são flutuantes. Passaram, ou sempre estão por lá, além da citada Ambev, marcas como Danoninho, Ades, Kibon, Kimberly Clark, Gafisa e Cataratas S/A. Em quatro anos de atuação, a agência fechou cerca de 300 parcerias.

        Se antes bolar um evento bastava um megacenário, repleto de cenografia caprichada para reter atenção, agora os apelos são mais tecnológicos e interativos. Festa, evento, campanha ou ação boa é a twittada, postada no Facebook e fotografada em todos os detalhes pelos convivas e repassadas ao amigos. A tal da audiência fragmentada. Portanto, é no detalhe, por vezes pequeno, que reside à eficiência.

        Histórias não faltam na Cross. As bolachas de apoio às tulipas de chope nos pontos de venda, por exemplo, são um belo atrativo para venda de salgadinhos. Parece óbvio. Mas, quem se envolver nessa tática, não pode esquecer de combinar com os russos. Afinal, como medir a reação dos consumidores? 

         Tati conta que articulou um parceria para a marca carioca Piraquê, que queria ampliar negocios em São Paulo nos pontos de venda, aproveitando a base de vendas da Ambev na categoria que chega a 80 milhões de tulipas no alto verão. Foi um sucesso de aceitação, mas esbarrou na falta de produção da Piraquê para atender à demanda. O anúncio de um tal biscoitinho à base de presunto despertava o pedido aos que manipulavam a bolacha, mas a empresa não conseguia entregar o produto no mesmo ritmo. É no detalhe que está o segredo do escambo entre empresas em forma de parcerias marqueteiras na era digital. Não pode bobear.

A profissão de jornalista acabou. Sobreviverá o ofício

 

        O jornalismo como atividade profissional acabou. Segue como de ofício. Pode parecer duro. E é duro, ainda mais quando a ponderação sai da boca de Paulo Markun, um bem sucedido profissional da área, com mais de quatro décadas de vivência em diferentes redações. Seria ótimo se fosse apenas mais um desabafo de algum dos inúmeros desafetos da profissão. Afinal, todas as vezes que se publica algo que poderosos de plantão não gostariam de ver veiculado, a mídia surge como vilã.

        O apresentador por dez anos do programa Roda Viva, na TV Cultura, não está sozinho ao traçar cenário tão dramático. Recente reportagem publicada no Portal Comunique-se relatava que a prefeitura de Iguatama, no centro-oeste mineiro, publicou edital de concurso público em que oferecia vagas para jornalista por R$ 622,73 e para coveiro, com exigência de ensino fundamental , por R$ 806,90.  Por ironia, o texto mencionava ainda que “para “alento” dos profissionais de comunicação, os aprovados para o cargo de lixeiro receberão a mesma remuneração do jornalista”.

        Markun falou para profissionais de comunicação em seminário sobre os efeitos das redes sociais na comunicação de governo, realizado em Florianópolis em 11 e 12 de julho. Historiou a origem da atividade para enfatizar que o jornalismo virou profissão quando a imprensa se tornou um negócio. Esse negócio prosperou com a receita obtida com a veiculação de publicidade. Porém, a difusão das mídias sociais, que tornou todo e qualquer cidadão portador e transmissor de informação diante das facilidades dos canais digitais, fez a audiência dos veículos tradicionais minguar e, com ela, jornais e revistas enfrentam queda de receita.

        A mídia tradicional americana, que detém alguns dos títulos jornalísticos mais prestigiados do mundo – como é o caso do diário The New York Times (NYT) –, viram a circulação cair pela metade nos últimos sete anos. Com isso, quase 40 mil profissionais perderam seus postos nos jornais e editoras dos EUA nesse período. Dados também apresentados por outro profissional respeitado no meio, o jornalista David Carr, no próprio NYT, no congresso preparado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, na semana passada em São Paulo.

        No desespero para tentar reter receita, os jornais, em especial porque são os mais penalizados, têm fechado o acesso aos seus portais na web, antes gratuitos. A questão em jogo é de eles perderem também esses leitores, que migraram o imprenso para o online. Mas, sem dinheiro para investir em reportagens, os jornais não têm como pagar as grandes coberturas, como as do chamado jornalismo investigativo, que requer muitos recursos.

        A disseminação da internet transforma seus usuários em formadores de opinião. O futuro da atividade, cujo papel era exercer uma espécie de curadoria dos assuntos do dia que merecem ganhar destaque, perdeu relevância. A intermediação jornalística perdeu valor. O fututuro da atividade ficou incerto e, é por isso, que o jornalista Markun acredita que o jornalismo acabou como profissão. “Vai sobreviver como um ofício e poderá ser exercido em veículos tradicionais como jornais, revistas e emissoras de rádio e TV, mas ainda em blogs, sites, Twitter, Facebook, Youtube”.

        Para reforçar sua análise, Markun elenca dados como o do uso de celular no Brasil, onde já há mais linhas de telefonia móvel do que habitantes no país. São 192 milhões de pessoas contra 224 milhões de celulares. Desses, um quarto já é conectado à internet. “A velocidade da transformação da mídia é assustadora e faz com que o raciocínio da reserva de mercado da atividade jornalística não se sustente”.

         Quando dois profissionais tarimbados saem a campo tecendo considerações sobre o fim do jornalismo, talvez seja tempo de se reinventar a atividade. Afinal, não serão os jornalistas os últimos dos moicanos. Outras atividades já enfrentaram maremoto similar provocado pelo avanço da tecnologia. Coisas da contemporaneidade.

Oi,oi,oi…mais empresas na arena do carente marketing esportivo

            Clubes de futebol são amadores em matéria de marketing, dizem os especialistas. E, quando o assunto é futebol, não faltam especialistas no Brasil. Quando comparado ao rendimento que a prática do esporte rende no exterior, não há dúvida que eles têm lá sua dose de razão. Ou, vem cá, alguém dúvida que a turma do Divino precisa urgentemente se profissionalizar? Bom, é verdade, que os pernetas da novela já contam até com patrocínio da fabricante de meias Lupo na camisa do time. Oi,oi,oi… marketing esportivo dá pano para manga.

            Na real, a maior cidade da América Latina andou de lado ontem por conta da disputa final no torneio Libertadores. Os 22 moçoilos correndo atrás da bola no estádio do Pacaembu, em São Paulo, monopolizaram o dia inteiro comentários sobre os times Corinthians e Boca Juniors. Fora que a cidade foi tomada pela torcida e simpatizantes, suas bandeiras e camisetas até em horário de expediente. Espocar de rojões, então, tomou os quatro cantos da cidade desde cedo..

            Não há qualquer dúvida, portanto, que futebol gera audiência, múltiplos interesses, troca de toda a ordem e, lógico, faz girar milhões. Na Europa, a paixão pelo esporte rende há tempos negócios milionários. Todos eles com cifras estonteantes. Basta ver o valor do passe dos jogadores made in Brazil.

            Aqui a atividade ainda traça curva ascendente. A proximidade do megatorneio da Copa do Mundo, em menos de dois anos, e dos Jogos Olímpicos, em 2016, acelera o processo e já não faltam empresários cacifando apostas na “pequena área”. Há desde o investidor de mineração e petróleo, Eike Batista que abriu a empresa IMX Talent dedicada à gestão de atletas, até o inglês Roy Webber, fundador da agência de prestação de serviços em marketing Works Brand Motion Events, que acaba de desembarcar no Brasil em associação com profissionais daqui. 

           Além do megaempresário Batista, o megajogador Ronaldo Fenômeno abriu empresa para explorar esse filão, a 9ine, em sociedade com outro inglês, o Martin Sorrell, CEO do grupo gigante da propaganda global, WPP. Cuidar do passe de atletas virou foco do marketing esportivo no Brasil. Mais outros negócios podem florescer. Daí o interesse crescente.

            Portanto, o que não vai faltar é orientação prá turma do tipo Divino. Criada há 24 anos, a Works, por exemplo, está presente nos principais eventos esportivos do mundo. Trabalhou para as últimas quatro Copas do Mundo, para seis edições da Eurocopa e oito da Liga dos Campeões, entre outros megaeventos futebolísticos. Tem passagens pelas arenas das disputas olímpicas e se especializou em produzir vídeos de divulgação, além de realizar festas e eventos corporativos em torno do esporte. A  unidade brasileira será comandada pelo mesmo ceo da matriz, Webber, e tem como sócios Adilson Tavares, Davis Tenório e Fabio Interaminense.          

Fábio, Davis, Roy e Adilson, da Works

             Há ano um gringo veio para o Rio de Janeiro durante a Rio Sports Expo. “Havia o interesse de atuar no Brasil, vimos que era necessário fazer isso in loco, mas não era barato nem fácil firmar um negócio aqui. Entendemos que precisávamos de parceiros brasileiros”, contou Webber, da Works. Além da entrada dos sócios, a agência também teve apoio do governo britânico para financiar a abertura da operação brasileira. O principal motivo para a vinda é a expectativa de amadurecimento do mercado com a realização dos grandes eventos esportivos Copa e Olimpíadas. “Estamos trazendo nossa expertise em grandes eventos para o período pós-Copa. Queremos ficar no mercado brasileiro, atuar no mercado corporativo, que irá desenvolver-se”, dizem os sócios. Oi,oi,oi

Buzinaço oportuno. Não oportunista.

Qualquer um ao abrir sua página no Facebook dará de cara com inúmeras manifestações sobre a participação do Corinthians na final da Libertadores  contra os argentinos do Boca Juniors. Dito isso, fica óbvio entender porque algumas marcas aproveitam para estimular seus negócios hoje, quando ainda há esperança de os brasileiros se saírem vitoriosos no jogo.

A agência de propaganda Leo Burnett Tailor Made preparou campanha para o seu cliente Iveco - o braço da Fiat que fabrica caminhões e que é um dos incontáveis patrocinadores do timão - e mandou ver com um spot de rádio e também um ringtone que traz o hino do Corinthians reproduzido com buzina de caminhão.

Hino do Corinthinas em ritmo de buzinaço de caminhão

Taí uma boa ideia. Simples, rápida e que faz jus à típica situação em que se aproveita uma oportunidade. Afinal, buzinaços em estádios de futebol é tradição. Esse, proposto pelos publicitários da agência, vem em ritmo de homenagem. E, se está todo mundo falando do Corinthians, nada mais oportuno do  que oferecer um brinde com potencial de agradar, sem ser invasivo ou deslocado. Erro comum nesse tipo de cenário.

A campanha para outras plataformas, que contempla comercial e anúncios impressos entre outras peças publicitárias, apela aos padrões mais comuns. Narra os sucessos alcançados pelo homem no passado, sempre em situações limites, e traça o tradicional paralelo com o jogo de hoje à noite, para encerrar com o clássico mote que é bom a marca tal fazer parte disso. Ok. O de sempre.

O comercial de rádio, convertido em ringtone e que é a melhor sacada, pode ser baixado por torcedores no celular. Na divulgação da campanha feita pela agência, o vice-presidente da Iveco, Natale Rigano, não se faz de rogado sobre o momento e declara que “o patrocínio chega em um momento importante para a Iveco, pois estamos crescendo muito, nossa rede está em expansão e estamos lançando uma nova geração de caminhões”. 

Logo, se os investimentos chegam em bom momento, nada melhor do que colar na onda de um time de futebol que mobiliza opinião  e faz barulho.  Seja contra, ou a favor.

Fantasmas & fantasminhas na artimanha de seduzir Cannes

 Cannes Lions Festival 2012 (divulgação)

        Salão do automóvel, nos EUA ou na Europa, exibe lançamentos. Feira internacional de livros, na Alemanha, vende produto. Congresso de tecnologia, seja onde for no vasto mapa mundi, distribui inovação. E o festival de propaganda tem o quê a oferecer? Nada, ou quase nada, além de ideias e valores subjetivos. Criatividade - que é a matéria prima desse negócio de convencimento ao consumo incensando marcas - não se comercializa. Então, dá-lhe premiação.

        Talvez esteja aí uma resposta à exaustiva discussão sobre a finalidade do mar de festivais promovidos por publicitários nos quatro cantos do mundo. Nesses encontros, onde se premia à farta, a finalidade mór é ver, ser visto, e, lógico, conquistar clientes. Festivais de publicidade, apesar da aura de glamour que querem imprimir em torno da premiação de peças publicitárias, é uma simples feira de negócios. Igual às outras. Não há mal nisso. O mundo se move por meio de empreendimentos que rendem lucros e dividendos. Publicidade é parte dessa engrenagem. Simples assim.

        O maior deles – Cannes Lions Festival, promovido anualmente na Riviera Francesa – obedece a essa lógica capitalista. Com uma ampla variedade de categorias, quase sempre celebrando a mesma coisa, os organizadores conseguem fazer as agências de propaganda inscreverem cerca de 30 mil peças. Tudo pago. E caro. Bem caro. Desse imenso universo de canditatos a prêmio, cerca de 10% dos “reclames” saem de Cannes com algum Leão, o tão ambicionado troféu. Atualmente, há mais de 80 países participando da competição. Todos ávidos para se qualificarem em meio a muitos interesses comerciais em jogo.

       Nesse ambiente competitivo, nem todas as propagandas inscritas são verdadeiras. Ou seja, foram feitas com a finalidade de atender a demandas de clientes. Condição que é uma das regras da disputa. Algumas são, digamos assim, licenças poéticas de profissionais do setor. Essas peças ganham o codinome de fantasmas e, todos os anos, geram discussões. Em alguns, os organizadores caçam os troféus ganhos pelos espertinhos que tentaram ludibriar as regras.  

      Este ano, a discussão pegou fogo entre alguns publicitários brasileiros. Parece que a turma verde e amarela exagerou na prática, o que pode resultar em perda de troféus, como já aconteceu no ano passado. Em defesa dos brazucas deve-se lembrar que não são os únicos. Mas há um certo exagero este ano. Muitos querem surfar na onda Brasil, projetada mundialmente pela economia do país menos afetada pelo drama da crise global desencadeada no final de 2008, que afeta os países do primeiro mundo.

       Só que, como bem disse alguém, o Brasil já é suficientemente reconhecido por sua expressão no meio publicitário e não precisaria apelar ao recurso dos fantasminhas que podem não ser nada camaradas. Afinal, é uma atitude discutível de desrespeito às regras do jogo, e que ainda pode afetar negativamente na imagem do País. 

        Acima de tudo, entretanto, cabe aos participantes nesse mundinho assumirem que Cannes Lions é uma feira de negócios. Não é um festival de cinema, repleto de trabalhos autorais. Se os pendores artísticos têm pouco espaço, há outras vantagens já que, pelo menos, o megafestival rola num lugar aprazível, em pleno verão europeu e ainda repleto de gente relevante para o negócio da propaganda. Fazer anúncios para convencer os outros a comprar algo é negócio. Não arte.

ATUALIZAÇÃO: Acabo de ler nos sites do meio publicitário que o Brasil bateu recorde de prêmios no evento do setor na costa francesa.  Conquistou 79 Leões no Cannes Lions 2012.  As agências de propaganda mais premiadas foram:  Ogilvy, DM9DDB, AlmapBBBDO, Young&Rubicam, Talent, Giovanni+DraftFCB e Age Isobar.

Os 79 Leões brasileiros conquistados em 2012 no Cannes Lions, por categoria, segundo a rigorosa apuração do Clube de Criação de São Paulo (CCSP) são:
Film – 05
Film Craft – 04
Branded Content & Entertainment – 02
Outdoor – 16
Promo & Activation – 08
Direct – 05
Mobile – 03
Media – 04
Design – 06
Press – 18
Radio – 4 + GP = 5
Cyber – 03

 

É hora da ética na anarquia online

No jornalismo digital a hora é de pôr ordem na anarquia online. É sabido, desde os idos tempos, que quando tudo se mistura, a credibilidade sai chamuscada. Quem respeita limites, acaba na vala comum dos que querem apenas tirar rápido proveito da situação. E, depois, os bons pagam pelos pecadores. Algo que proliferou no mundo dos blogs. Há dez anos, algumas consultorias previam que a busca de filtros nesse ambiente seria inevitável. Nos primórdios da era da conexão, parecia desnecessário, tal o encantamento com a liberdade embutida na internet.

O tempo passou e os limites se impõem. Dois movimentos nessa direção deram as caras nas últimas semanas. A turma dos Blogs de Turismo criou a Associação Brasileira de Blogs de Viagem (ABBV), que vem a ser a primeira entidade oficial da categoria na América Latina.  E, com a ambição  de garantir a credibilidade do marketing via internet, gigantes desse mundo virtual - Google, Facebook, Twitter, AOL e Interactive Advertising Bureau  (IAB) - se associaram e fundaram a Ads Integrity Alliance para reduzir a quantidade de propaganda de má qualidade, ou spams, na web.

Separar alho de bugalhos

Os autores dos blogs de turismo que se uniram em torno da ABBV explicam  que a associação “busca o fortalecimento dos blogs de viagem como principal fonte de informação para quem quer viajar”. Para tal, criaram um estatuto com princípios de conduta ética e profissional desses sites. “Com o aumento significativo do número de blogs de viagem, a ABBV ajuda a construir parâmetros de profissionalização”. Para o leitor identificar os associados será exibido um selo na home e na página de expediente ou de contato do blog.

 Com nove sites que somam juntos uma audiência de 2,6 milhões de pageviews e 1,1 milhão de visitas únicas por mês (Abrindo o Bico, Conexão Paris, A Janela Laranja, Jeguiando, Matraqueando, Sundaycooks, Uma Malla pelo Mundo, Viajando com Pimpolhos e Viaje na Viagem), seus autores perceberam que precisavam se distanciar dos que misturam canais e comprometem os resultados do que publicam.

 Falsas melisseiras

O alerta sobre má conduta se acentuou com a crescente onda de blogs de moda, ávidos por emitir opinião paga em troca de publicidade ou mera boca livre em festas e afins. Algumas situações acabaram sendo desmascarados nas redes sociais, justamente pela falta de autenticidade das opiniões emitidas sobre produtos recomendados pelos blogueiros de moda, caracterizando uma ação comercial, no estilo propaganda enganosa.

Com a tag #melissafail, que ganhou destaque no Twitter noccomeço do ano, a ação publicitária da sandália de plástico gaúcha mereceu sérias críticas. O fabricante levou blogueiras de moda para conferir a inauguração de uma loja Melissa em Nova York. As moças rasgaram elogios ao produto. Porém, e há sempre um porém, elas não só não usavam o calçado, como costumavam ser críticas sobre a marca, chamando-a de ‘porcaria’. Os conhecidos denunciaram e a história virounum tititi no mundinho fashion.

Segundo dados do Google Insight, a busca por “blog de moda” cresceu 2.275% nos últimos cinco anos — mil vezes mais do que as buscas por todos os termos da categoria Moda. Daí porque a repercussão de falta de credibilidade ganha importância. Algumas blogueiras têm milhares de visitantes únicos por dia. Os anunciantes vão atrás e blogueiras cobram cerca de dois mil reais por uma simples menção positiva à marca.

Hora de construir as melhores práticas

A associação moralizadora do meio online, que acaba de ser criada pelos gigantes da era digital nos EUA, tem como projeto preparar um documento que defina e classifique a má publicidade na rede. Com base nisso, vai compartilhar com os associados as informações sobre quem estiver povoando a internet com publicidade falsa e anúncios prejudiciais aos consumidores.

“Nenhuma empresa individual ou agência de aplicação de Lei pode, sozinha, eliminar esses maus atores de toda a web” , declarou Eric Davis, gerente global de políticas públicas do Google, no próprio site da companhia. A melhor forma de resolver os problemas comuns a uma rede altamente interconectada é fazer com que a indústria trabalhe unida, construa as melhores práticas e sistemas, compartilhando informações. Ou seja, ponham ordem no atual chiqueiro.

 

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d bloggers like this: