A profissão de jornalista acabou. Sobreviverá o ofício

 

        O jornalismo como atividade profissional acabou. Segue como de ofício. Pode parecer duro. E é duro, ainda mais quando a ponderação sai da boca de Paulo Markun, um bem sucedido profissional da área, com mais de quatro décadas de vivência em diferentes redações. Seria ótimo se fosse apenas mais um desabafo de algum dos inúmeros desafetos da profissão. Afinal, todas as vezes que se publica algo que poderosos de plantão não gostariam de ver veiculado, a mídia surge como vilã.

        O apresentador por dez anos do programa Roda Viva, na TV Cultura, não está sozinho ao traçar cenário tão dramático. Recente reportagem publicada no Portal Comunique-se relatava que a prefeitura de Iguatama, no centro-oeste mineiro, publicou edital de concurso público em que oferecia vagas para jornalista por R$ 622,73 e para coveiro, com exigência de ensino fundamental , por R$ 806,90.  Por ironia, o texto mencionava ainda que “para “alento” dos profissionais de comunicação, os aprovados para o cargo de lixeiro receberão a mesma remuneração do jornalista”.

        Markun falou para profissionais de comunicação em seminário sobre os efeitos das redes sociais na comunicação de governo, realizado em Florianópolis em 11 e 12 de julho. Historiou a origem da atividade para enfatizar que o jornalismo virou profissão quando a imprensa se tornou um negócio. Esse negócio prosperou com a receita obtida com a veiculação de publicidade. Porém, a difusão das mídias sociais, que tornou todo e qualquer cidadão portador e transmissor de informação diante das facilidades dos canais digitais, fez a audiência dos veículos tradicionais minguar e, com ela, jornais e revistas enfrentam queda de receita.

        A mídia tradicional americana, que detém alguns dos títulos jornalísticos mais prestigiados do mundo – como é o caso do diário The New York Times (NYT) –, viram a circulação cair pela metade nos últimos sete anos. Com isso, quase 40 mil profissionais perderam seus postos nos jornais e editoras dos EUA nesse período. Dados também apresentados por outro profissional respeitado no meio, o jornalista David Carr, no próprio NYT, no congresso preparado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, na semana passada em São Paulo.

        No desespero para tentar reter receita, os jornais, em especial porque são os mais penalizados, têm fechado o acesso aos seus portais na web, antes gratuitos. A questão em jogo é de eles perderem também esses leitores, que migraram o imprenso para o online. Mas, sem dinheiro para investir em reportagens, os jornais não têm como pagar as grandes coberturas, como as do chamado jornalismo investigativo, que requer muitos recursos.

        A disseminação da internet transforma seus usuários em formadores de opinião. O futuro da atividade, cujo papel era exercer uma espécie de curadoria dos assuntos do dia que merecem ganhar destaque, perdeu relevância. A intermediação jornalística perdeu valor. O fututuro da atividade ficou incerto e, é por isso, que o jornalista Markun acredita que o jornalismo acabou como profissão. “Vai sobreviver como um ofício e poderá ser exercido em veículos tradicionais como jornais, revistas e emissoras de rádio e TV, mas ainda em blogs, sites, Twitter, Facebook, Youtube”.

        Para reforçar sua análise, Markun elenca dados como o do uso de celular no Brasil, onde já há mais linhas de telefonia móvel do que habitantes no país. São 192 milhões de pessoas contra 224 milhões de celulares. Desses, um quarto já é conectado à internet. “A velocidade da transformação da mídia é assustadora e faz com que o raciocínio da reserva de mercado da atividade jornalística não se sustente”.

         Quando dois profissionais tarimbados saem a campo tecendo considerações sobre o fim do jornalismo, talvez seja tempo de se reinventar a atividade. Afinal, não serão os jornalistas os últimos dos moicanos. Outras atividades já enfrentaram maremoto similar provocado pelo avanço da tecnologia. Coisas da contemporaneidade.

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