Cena de filme de terror nas asas da Malaysia

Avião Malaysian
Foto: Reprodução/Facebook/Cor Pan

Primeiro veio uma grande explosão. Depois começaram a chover corpos. Teve cadáver que atravessou o telhado”. Parece descrição de cena de filme de terror de segunda linha. Mas não é. Trata-se do relato de moradores que vivem na região Donetsk, no leste da Ucrânia, próxima à fronteira com a Rússia, aonde o avião da Malaysia Airlines despedaçou no ar, espalhando passageiros nus por campos de trigo e de girassóis. Panorama inimaginável.

São imagens fortes o bastante para impressionar por longo tempo. E vão aumentar o rombo na imagem da companhia. E isso, independentemente, de se considerar que a aeronave tenha sido abatida por um míssil guerrilheiro e não tenha sofrido mais um acidente aéreo. Com uma contabilidade de prováveis 298 mortes, que vão se somar aos 283 desaparecidos misteriosamente em acidente da mesma empresa em março deste ano, a Malaysia rompe com lei das probabilidades estatísticas, que considera ser improvável que dois aviões da mesma empresa sejam protagonistas de grandes tragédias no mesmo ano.

A maior prova de que os estragos de imagem para a Malaysia Airlines já estavam incomodando ficou registrada na mensagem irônica postada na página do Facebook de uma das vítimas, sete horas antes do acidente fatal. O holandês Cor Pan publicou foto do avião em que embarcaria com a legenda: “Se ele desaparecer, é assim que se parece”. O que seria brincadeira virou trágica realidade e acabou compartilhada milhões de vezes, além de ter motivando a criação de outra página, na mesma rede social, em solidariedade ao autor caído. Resultado, o que já estava péssimo para a imagem da empresa, conseguiu ficar ainda pior com força da multiplicação espontânea online.

O avião viajava de Amsterdã para Kuala Lumpur e caiu em uma região que está sob o controle de milicianos separatistas pró-Rússia em confronto com as forças governamentais da Ucrânia. Uma situação complexa que ainda vai render muito assunto, fora a drama vivido pelas famílias das vítimas.

A recuperação do impacto será tarefa árdua para uma companhia que erra a mão na comunicação com a sociedade. Os resultados financeiros do primeiro trimestre mostraram prejuízo de 100 milhões de euros. Entre os fatores estão à queda na compra de passagens. Na China, principal mercado da Malaysia e berço da maioria dos ocupantes do avião desaparecido em março, as vendas haviam despencado estrondosos 60%. Imagine o que vai acontecer agora. E, desta vez, com grande números de holandeses envolvidos.

É aconselhável que a empresa área comece a tomar providências. E rápido. O criticado atendimento aos parentes das vítimas do outro acidente causou enormes estragos. Não será diferente com corpos caindo do céu.

Falta ginga, mas sobra RP. Uma aula

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Simpatia, quem diria, se soletra em alemão na festejada como a mais calorosa das Copas do Mundo graças ao espírito acolhedor do povo brasileiro. Sim, porque eles mostraram fora do Maracanã porque mereceriam a glória dentro do reverenciado templo do futebol nacional. E tudo começou já no desembarque, quando escolheram a Vila de Santo André (BA) para se instalarem. Lá conheceram os índios Pataxós. Rolou um clima de empatia. Os jogadores aprenderam a “dança da sorte” com estudantes da Escola Indígena Pataxó de Coroa Vermelha e fizeram o ritual em treinos no campo de futebol. Surpresa, sob o olhar encantado do mundo após a dura batalha contra a Argentina, repetiram a coreografia aprendida tendo ao meio a Taça conquistada pelo tetracampeonato no sagrado solo do estádio carioca. Reverência aos ancestrais desse País.

Bastaria. Mas não. Foram bem mais longe. Na tarde da disputa final, veicularam nas redes sociais um vídeo de agradecimento pela acolhida por aqui. Arriscaram até desajeitadas frases em português e, desta vez, dispensaram o uso de música de fundo do repertório nacional. Talvez como forma de evitar problemas como o com a mulher de Caetano Veloso, que encrencou com uso indevido de Tieta em outro filme compartilhado por eles sobre a convivência com os habitantes na Vila de Santo André. Episódio chato. Mas contornado com elegância. Tiraram o vídeo do ar. Uma pena ainda mais agora que são campeões do mundo!

Em outro gesto de simpatia no dia derradeiro, bem no final do jogo, a comissão técnica exibiu camisa com a inscrição nas costas: “Obrigado Brasil pela Copa maravilhosa“. Sem dúvida, ganharam ainda mais adesão ao movimento que já rolava nas redes sociais: “Como não torcer por eles?” E isso apesar de terem sido os algozes do selecionado brasileiro (o fatídico 7X1). Além, lógico, de terem fama de frios e não serem os reis da ginga social.

Essas sacadas provocaram entre profissionais de marketing um alerta sobre a necessidade de estudarem o caso. Com razão. A Federação Alemã de Futebol (Deutscher Fußball-Bund – DFB) fez um trabalho de ponta em matéria de Relações Públicas (RP) em tempos de mídia online. Usaram os recursos disponíveis para cativar exposição positiva espontânea com suprema habilidade. Reportagens sobre o assunto, publicadas em jornais e sites, já explicam que as ações foram estruturadas com antecedência, quando equipes vieram fazer o reconhecimento da área aonde os jogadores iriam se preparar. Além dessas, que contam com grande plasticidade e significado, a Federação Alemã de Futebol doou €10 mil para a tribo Pataxó que os acolheu.

Mais um detalhe precioso: o funcionário da Federação que cuida há quatro anos, com esmero e competência do conteúdo exposto nas redes sociais sobre o selecionado alemão, é o jornalista de origem judaica Roy Rajber. Para um país que tem uma passagem histórica difícil com o povo judeu, há também certo simbolismo nesse fato. Nascido em Munique, de família israelense, Rajber comentou à Folha de São Paulo o fato de um judeu ser hoje responsável por divulgar uma boa imagem alemã para o mundo: “Meus avós são sobreviventes do Holocausto. Nasci e cresci na Alemanha, e o fato de hoje eu trabalhar para a seleção alemã diz tudo sobre a vida dos judeus na Alemanha atual”.

Há seis meses, investidores alemães compraram um terreno na Bahia, onde construíram um hotel, um centro de saúde, um campo de futebol e uma estradinha para interligar esse pequeno universo. A Federação deles não trouxe funcionários alemães, contratou pessoas da cidade. Quando a seleção chegou treinou duro, como se espera da fama associada à rígida disciplina alemã, mas, nas horas vagas, os jogadores se socializaram com a comunidade local. Participaram de festas e até vestiram a camisa do Bahia, time da torcida da região. Mais ainda, diante da vitória escandalosa contra o Brasil, no intervalo do jogo, eles combinaram diminuir o ritmo para não “humilhar a seleção anfitriã”. Nada de tripudiar. Depois, declararam que seus ídolos são os jogadores brasileiros do passado. Parte do que foi erguido na Bahia ficará para a população da cidade. Já o centro de treinamento denominado Campo Bahia continuará funcionando como condomínio cujas casas serão vendidas e funcionará no sistema de condomínio-hotel.
#comonãotorcerparaeles?

FOTO 1 Clic do momento dança Pataxó feito da televisão por Maria Helena Souza
FOTO 2 Foto de Léa Penteado na Vila de Santo André (BA), onde os alemães deixaram saudades

Parados, sim. Mas crescendo em brasilidade

Dirceu Rodrigues Paulista 16h45 BrasilXColombia foto Dirceu Rodrigues

Daqui a pouco o País para. Basta ver a foto acima, feita por um amigo da mais paulista das avenidas, durante o último jogo do Brasil. Passada a euforia virá à crítica sobre as perdas econômicas com a falta de atividade nesses dias de Copa do Mundo. Não há como rebatê-la. Os atentos moços das estatísticas jogam as contas na casa dos muitos bilhões de reais. Há quem contabiliza 12 outros 16 dias parados. Com isso, a economia perderia a injeção de 17 bilhões a 32 bilhões de reais. É uma contabilidade baseada em projeções. O que não vendeu, o que não produziu. Seja como for, ninguém contesta que negócios deixam de ser feitos. Mas, bem nesse ponto me pergunto: será que outro negócio também não se constrói com toda essa paradeira? Quanto vale o sentimento de brasilidade crescente, que é um ativo intangível e que ganha holofote?

Isso fora o ganho em termos de imagem para o Brasil. A promoção da imagem do país que a mídia global está dando ao país com intermináveis imagens, textos e vídeos da alegria made in Brazil, não tem preço. E isso, com todo o drama retratado pelas obras incompletas e as dificuldades de mobilidade que a imprensa local martelou sem qualquer dó ou paixão. Não é que o Brasil tenha passado por uma metamorfose súbita na Copa. Os dias parados promovem de certa forma o conceito embutido no tal ócio criativo tão difundido pelo sociólogo italiano Domenico De Masi. Afinal, ele é uma experiência harmônica e única, que proporciona sempre uma melhor readaptação para todas as necessidades da sociedade proporcionando mais alegria.

De Masi classificou os modelos de civilização encontrados hoje no mundo: o norte-americano e seu “fundamentalismo do consumo” e o fundamentalismo árabe em sua exagerada devoção à religião. Para o escritor há extremos em ambos: “enquanto o primeiro modelo é rico em recursos, o outro vive na mais completa
Miséria”. O terceiro modelo que ele aponta é greco-latino, que exalta a comunicação entre as pessoas, a alegria e a sensualidade. Seria a cultura do equilíbrio. Pronto, o Brasil parado vive em sua intensidade à cultura do equilíbrio para Di Mais. Então que as ruas fiquem vazias e que a pátria vista chuteiras, ainda que por algumas horas.

Sim, os problemas virão. E não serão poucos. Em entrevista na Folha de São Paulo o cientista político Jules Boykoff, professor da Pacific University, nos EUA e estudioso do impacto das Copas e das Olimpíadas nos países-sede, fala em Capitalismo de Celebração. Upa! “Celebração é um estado de exceção, em que regras normais são suspensas, e a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos são celebrações. O que ocorre durante esse período é que o público paga enormes quantias para realizar os eventos, e as empresas é que saem com os lucros. Ou seja, o dinheiro do contribuinte é direcionado para esses eventos e, depois, os políticos afirmam que é necessário apertar os cintos, implementar medidas de austeridade, cortar programas, porque todo aquele dinheiro foi gasto”.

Que venham as contas. Com ou sem futebol, é o povo que sempre vai pagá-las.

O inesperado que conta a favor

Timing e estratégia bem armada são oportunidades essenciais no mundinho do marketing. Saca melhor, como nos tempos do faroeste, que saca primeiro. Essa característica associada ao inesperado conspira a favor. Lógico, tudo sempre depende de como a ação será interpretado pelos fãs. Tendo a achar que, em função do infortúnio que se abateu sobre o ídolo em pleno campo de batalha, a tendência é encarar o singelo e até óbvio comercial de forma afetuosa. Ponto para o Santander e seus marqueteiros.

O banco pôs no ar, exatamente um mês antes do acidente (03/06/2014) que tirou Neymar da Copa do Mundo 2014, um vídeo onde alguns simpatizantes do atleta tinham sido convidados a enviar mensagens de força para ele. Durante as gravações, esses fãs foram surpreendidos pela presenta do próprio atacante da seleção nos bastidores. A reação ao encontro renderam bons minutos de emoção. É isso que o filme releva, o impacto desses segundos. Boa sacada, embora não excepcional até pelo fato de não ser inédita. Gravar mensagens de estímulo é um recurso usual.

A assinatura da peça publicitária é Força Neymar! e já atingiu mais de 1,7 milhões de acessos até o momento. Ganha embalo extra agora. Afinal, não só a turma do marketing do Santander e o mundo – com destaque para os 200 milhões de técnicos em ação por aqui – estão como os escolhidos pelo banco em sua campanha, desejando força e, lógico, pronta recuperação. A Copa termina sem Neymar. Mas a mensagem permanece.

Copa do contra e da falta de requebro

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Falem o que falar. O gol contra vai fazer história na Copa do Mundo nos domínios do pentacampeão. Nunca antes na participação brasileira nesse evento houve fato similar. Pelo menos é o que estão apregoando os especialistas. Com o desastrado chute, a carreira do lateral-esquerdo Marcelo – que joga no Real Madrid e está em campo pelo selecionado nativo – sofre um abalo. Nada que não seja superado e ainda possa gerar lucro e dividendos. Lá na concentração, relações públicas e publicitários já devem estar negociando táticas para lidar com o infortúnio com o empresário do atleta. Para todo o mal há um remendo. E isso vale até mesmo em tempos cibernéticos, movidos a redes sociais, que elevaram a proporções gigantescas a repercussão, as piadinhas e a produção de memes em torno do gol Croata metido na rede pelo brasileiro Marcelo.

Ter as atitudes corretas em um momento tão delicado pode resguardar a credibilidade da imagem do jogador e evitar desgastes. Ao disseminar informação em tempo recorde, a era virtual promove uma intrincada rede na qual há perda de controle sobre o que é dito e como é dito. Para reputações é maquiavélico. Marcelo sempre será lembrado pelo gol contra na tão ansiada Copa das Copas, que tinha o papel de promover o protagonismo brasileiro no cenário mundial. Há pouco mais de 10 minutos de jogo, o jogador marcou o futebol nacional para sempre. Minutos depois, o fato era o assunto mais comentado do Twitter, os chamados Trending Topics.

Fora a animação das torcidas, em especial a brasileira, a estreia da Copa não foi assim uma Brastemp. Embora a eletrizante tensão das manifestações de junho do ano passado tenham ficado para trás, permanece uma insatisfação que vai além dos interesses partidários imediatos com a próxima eleição presidencial. A Copa começou num astral bem menos radiante do que projetava a euforia de se ter o campeonato realizado por aqui. E muita coisa conspirou contra no dia de ontem (12/06). O espetáculo de abertura, criado pela coreógrafa belga Daphné Cornez e dirigido pelo italiano Franco Dragone, definitivamente não agradou. Já sobram críticas mundo afora quando a festa é comparada às últimas edições. O estádio do Itaquerão merecia melhor sorte em sua inauguração na cena global.

O momento da música tema foi ainda mais irritante pela falta de sintonia entre a cantoria saída das bocas de Claudia Leitte, Jennifer Lopez e Pitbull, e o estridente playback. Espanto ampliado no País do samba no pé, ao se assistir ao requebro desajeitado das artistas-cantoras sobre a bola pirotécnica posta no meio do estádio. Sorry, não foi só o lateral Marcelo que deu azar. A marca Brasil não saiu fortalecida. E isso num setor que detém reconhecida excelência: o festejado o futebol. Dos 11 garotos titulares da Seleção, apenas um ainda joga na Brasil.

A bola vai rolar e o País fica como sempre esteve

COPA 10291827_814515131893851_3494486553910190218_n foto Ronaldo Marques

Na Farmácia Buenos Aires, enquanto aguardava para ser atendida no começo da semana, vi um lindo garotinho envergando a camisa 10 da seleção. Cena rara até às vésperas da tão ambicionada Copa do Mundo em terra brasilis. Naquele ambiente, assim como nas ruas, os torcedores andavam envergonhados, sem bandeiras, trajes verde-amarelos ou qualquer quinquilharia típica de torcedor. Cheguei a achar que o clima de insatisfação com o atual estado da coisa pública, sentimento explicitado à exaustão nas manifestações de junho passado, haviam realmente deixado um gosto amargo na boca da população e iriam esvaziar o ufanismo pátrio típico desses eventos. Em especial, porque, desta vez, a Copa vem associada à intensa guerrilha partidária pela cadeira presidencial. Porém, nada parece sufocar o Brasil de chuteiras.

A rebeldia, depois de os vândalos tomarem conta das ruas em ataques descontrolados a tudo e todos, tinha tudo para acabar em pizza. Pareceram exageradas reportagens que divulgavam o movimento de empresas em reduzir exposição de suas marcas com medo de comprometerem a imagem das companhias. Soou até mesmo como mais uma tática para ocupar espaços de mídia e chamar ainda mais atenção junto ao público.

É lógico que o medo de protestos violentos paralisou muitos num primeiro momento. Só isso justifica um garotinho solitário envergar a camisa da seleção a menos de 10 dias da estreia da Copa. Agora, o incomodo vai sendo superado e calçadas, postes, janelas, carros e até cachorros estão se enfeitando. Vai ter Copa e o Brasil permanecerá como sempre esteve. Nada muda em um mês. E o tal legado não inverte um comportamento tão arraigado na cultura de um povo, como é o celebrado estímulo ao jeitinho. Ou alguém tem dúvidas que os atrasos nas obras não se dariam como estão se dando, com tapa buraco de última minuto?

Copa Marili RibeiroComo o inevitável se impõe, a ordem é comemorar o possível. Quem pagou caro para faturar a festa entrou no clima. A Brahma resolveu assim amplificar a campanha que pretende levar o clima da Copa para fora dos estádios. Algo na linha do que, na Europa, recebeu o nome Fan Fests, realizadas durante as Copas de 2006, na Alemanha, e de 2010, na África do Sul. Durante a transmissão dos jogos, eventos aconteciam em locais badalados e ofereciam atrações com apresentações de artistas internacionais. No Brasil, a iniciativa coube à empresa líder do mercado cervejeiro Ambev ,que é dona da marca Brahma.

Serão 14 Arenas Brahma distribuídas em sete cidades do País como no Morro da Urca, no Rio de Janeiro, ou no Marco Zero, em Recife. Aqui em São Paulo haverá dois espaços de comemorações, um no Jockey Club e outro no Estádio do Morumbi, que ficou fora das disputas do mundial.

A indústria cervejeira, assim como outras companhias, não se intimidou com os números divulgados sobre a aprovação de protestos contra a Copa, que indicavam quase 50% de apoio da população até o começo do mês. Lógico, que a situação foi abrandada com a clara a mudança de atitude na cobertura jornalística.

Quando a conhecida teoria da espiral do silêncio – usada em análises de comportamento da opinião pública – ganhou corpo, governo, anunciantes e veículos de comunicação correram para mostrar os encantos do campeonato de futebol. A tal espiral, iniciada por aqueles que no espaço público são capazes de proliferar a percepção que se torna socialmente mais aceita, estava atrapalhando os negócios. Era tempo de tirar o bode da sala. Emissoras de televisão, TV Globo à frente, puseram suas equipes nas ruas para angariar simpatia. Deu resultado. O País perdeu a vergonha de se colorir de verde e amarelo.

Celular inteligente para todos

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Quem não tem Steve Jobs, para fazer todas as micagens necessárias que garantiam atenção global da mídia nos lançamentos da empresa, recorre ao charme que está ao alcance de seu bolso. Para lançar a linha de smartphones a preços mais populares (em relação ao top de linha do mercado), a Motorola apelou para o velho e bom evento de relações públicas. Juntou em São Paulo cerca de 170 pessoas entre jornalistas, blogueiros e clientes, num espaço amplo e repleto de pequenos ambientes. Dessa forma todos puderam passear sem pressa e manusear os aparelhos, assim como esclarecer dúvidas e até entrevistar os executivos da companhia, ao vivo, ou em pequenos grupos. No final, foram mais de 50 entrevistas. Haja folego, em especial porque as perguntas quase sempre se repetem. Não é só ídolo/ator de novela/ jogador de futebol que sofre, não. Homens de negócios também. Alguns, é verdade, gostam.

No Brasil, o encontro de lançamento da nova linha de celulares foi realizado no Estúdio Glória, em Pinheiros. Quem esteve por lá pode conversar com presidente da Motorola, Rick Osterloh. Depois de perder mercado alucinadamente para a pesada concorrência da Samsung e Apple, e de ser comprada pelo gigante Google que, aliás, vendeu para chinesa Lenovo, no começo deste ano, a companhia tenta conquistar um segmento de mercado. Pelo que foi dito no evento, vai atacar os compradores que ainda não tenham um smartphone, ou então os que tenham comprado um sem qualidade. “Entre as pessoas que têm um telefone celular, 70% têm um celular tradicional sem conexão à internet, sem vídeos, entre outras coisas. Ainda temos 2,1 bilhões de pessoas no mundo que sequer têm um telefone móvel”, andou repetindo Osterloh aos jornalistas que o questionaram.

A Motorola apresentou a 39 países, agora em maio, os aparelhos Moto E em versões com suporte a dois chips e TV digital. O aparelho de entrada custa R$ 530 e a versão mais turbinada, com dois chips e TV digital, R$ 600. Com o mote publicitário “Made to last. Price for all”(algo como “vendido a preço de custo”), o Moto E não esconde ao que veio: tornar os dispositivos móveis inteligentes acessíveis até mesmo à turma do Bolsa Família. “Acreditamos que o acesso a dispositivos móveis deve ser um direito e não um privilégio”, prega o presidente da Motorola.

A diretora de Comunicação para a América Latina, Luciana Vedovato, explica que a companhia trabalha com o time global para definir estratégias de lançamento nos mercados em que atua: “A Motorola foi pioneira em fazer eventos reunindo blogueiros e jornalistas para anunciar seus produtos. Até 2010, os lançamentos eram feitos em sessões diferentes para estes dois públicos. Com a popularização e profissionalização dos blogs, a empresa decidiu reunir blogueiros e jornalistas em um só evento. Esta fórmula deu tão certo que, desde 2013, inovamos e estamos fazendo um evento único para jornalistas, blogueiros, e os principais clientes e parceiros de negócios”.

Eu não diria que a empresa “inovou” nessa tática de chamar atenção misturando plateias, já que Jobs vinha fazendo isso há anos. Montava um circo nos EUA e levava convidados do mundo inteiro, além de gerar uma intensa boataria sobre o que seria lançado para “espetacularizar” ainda mais a sua apresentação. Ganhava com essa tática espaço espontâneo na mídia e, após o evento, filas colossais nas suas lojas. O perfil marqueteiro de Jobs foi fator que colaborou e muito para o sucesso comercial da Apple. No mundo da tecnologia, ninguém dúvida, esses encontros se tornam necessários por conta da tecnologia embarcada. É preciso dar esclarecimentos minuciosos. Hoje em dia e cada vez mais, os celulares são computadores de mão.

Banana verde, com efeito cênico

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O rapaz comeu a banana em campo. Foi uma boa sacada, não há dúvida, uma reação instintiva que virou uma espécie de ato pacífico contra o racismo tão arraigado em nosso cotidiano. Ok. Simpático. Mas uns espertinhos resolveram aproveitar a cena e posar em “apoio” à causa do combate ao preconceito. Afinal, na foto bem armada, todos podem ser contra. Aí a história, em tempos de conexão global, ganhou repercussão instantânea. Comer banana na foto não dá o mínimo trabalho. A tal campanha viralizou como rastilho de pólvora e o outro rapaz, o que jogou a banana, perdeu o emprego. Pode ser o único saldo episódio. Ou alguém tem notícia de que o atacante Neymar, que bombou a oportunidade, doou alguns de seus milhões para o movimento de negros por direitos iguais aos brancos? Não só ele, diga-se de passagem, mais qualquer outro famoso fisgado pela graça de se deixar fotografar com uma banana madura tomou alguma atitude mais concreta no combate ao racismo? Não até o momento. Para passos mais consistentes, a banana estava verde.

Pior, toda a mobilização não só vai acabar em bananada, como ainda destampou o outro lado, já que desencadeou movimentos de apoio ao algoz na Espanha, um claro indicativo que a causa do combate ao racismo não é assim tão universal como pareceu nas redes sociais, programas de televisão e capas de revistas. Na última sexta-feira (09/05/2014), o lateral brasileiro Daniel Alves, do Barcelona, pediu que o jovem que jogou a banana em sua direção no campo do Villarreal recupere o trabalho. Lógico, dadas às devidas proporções que o caso tomou, o brasileiro fez o que sempre se costuma fazer: contemporizou. “Minha única preocupação é que o garoto perdeu o emprego e eu não queria isto. Não queria prejudicar ninguém, ele fez uma brincadeira e as pessoas ficaram revoltadas”, declarou o jogador em uma rádio catalã. Então, que fique bem claro: o ato racista era só brincadeira. A reação também não passou de diversão. E todos os que posaram de bananinha da mão estavam só querendo tirar uma onda. Nada muito sério.

O imprudente jovem trabalhava com as equipes de base do Villarreal, que proibiu seu acesso pelo resto da vida às instalações e ao estádio do clube. Na prática fez o jovem engrossar o já enorme contingente de desempregados na Espanha. David Camapayo Lleo, além de banido pode ainda ser condenado pela Justiça a uma pena de um a três anos de prisão pelo ato de racismo. Após campanha criada no Twitter por amigos e familiares, o torcedor que jogou a banana vem ganhando apoio de centenas que foram às ruas para protestar contra a punição. Um porta-voz da família do jovem declarou à imprensa espanhola: “Uma coisa é o erro que ele cometeu. Tem que pagar. A outra é esse linchamento que está recebendo de uma maneira totalmente desproporcional”.

Até mesmo a polêmica em relação à contratação de Neymar pelo Barcelona voltou a ser lembrada como uma das razões dele ter decidido abraçar a tal causa #somostodosmacacos. Dizem que isso poderia render uma visibilidade positiva na mídia e, por isso, havia profissionais de marketing atrás da reação dele. A agência de propaganda Loducca bolou a estratégia e tinha tudo engatilhado esperando apenas uma banana madura cair na rede. Ou melhor, no gramado. Como antecedente a toda essa trama há uma recente entrevista ao canal noticioso CNN, onde Neymar exibiu mágoa com a forma como o seu time anterior no Brasil, o Santos, lidou com a situação de sua venda e aproveitou para negar que essa história (a de que o pai do atleta teria levado dinheiro por fora na compra de seu passo pelo time espanhol) prejudica seu rendimento no Barcelona: “Não acredito que isso tenha afetado. Estou acostumado a deixar todos os problemas de lado. Neste momento estou relaxado. É algo vergonhoso quando todo mundo fala de coisas que não são verdade, mas isso não me afeta em campo”, disse Neymar ao programa.

A campanha antirracismo iniciada por ele no Instagram e no Twitter, com uma foto dele e do filho devidamente acompanhada de bananas, dividiu logo de cara a opinião pública e muitos se frustraram pelo fato de o movimento não ter uma origem espontânea. Oportunista ou não, para a conservadora revista americana Time, Neymar e Daniel Alves “são garotos-propaganda perfeitos para uma campanha antirracismo” pelo fato de ambos terem projeção internacional e milhares de seguidores. A Revista fez na matéria críticas diretas à FIFA por sua inoperância em reduzir o racismo no futebol. Afinal, diz a publicação, nada surte resultados porque não há punição para investidas preconceituosas nos estádios, como tem sido os casos de torcedor que jogam bananas. Pois é, ao que tudo indica todo o barulho midiático pode dar em nada. Talvez, se da próxima vez tentarem uma mobilização com um cacho inteiro…

A praça pública precisar ser pública. Simples assim

GVT Praça Praça Éder Sader foto: Marcos Roma

Basta uma faísca para que a inspiração brote na busca de melhoras do bem público, especialmente quando se consegue envolver na tarefa a comunidade afetada por ele. Na Praça Éder Sader, em uma encosta íngreme do bairro de Vila Madalena na capital paulistana, foi assim. A empolgação dos participantes, em um evento de fim de semana, recuperou parte das condições do local que andava sombrio, assim como promoveu arrecadação de fundos entre os próprios moradores para que seja dada continuidade ao uso coletivo e intensivo do lugar, o que será administrado pelos grupos montados para diferentes fins. Se o projeto vai decolar e construir uma relação efetiva de convivência só o tempo dirá. Mas a faísca foi dada e, nesse caso, foi acesa por uma empresa de telecomunicações, a GVT, que investiu verba para que a ONG Instituto Elos organizasse a união de todos em torno da praça.

No Brasil, onde a consciência de cidadania ainda é pouco desenvolvida, a praça pública nem sempre assume a relevância e a ocupação que merecia pela população do seu entorno. Daí a ideia de algumas entidades em construir com os frequentadores do lugar uma relação de cumplicidade. Afinal, a praça é do povo, diz a música, mas pertence mais ainda aos habitantes das redondezas, que podem usufruir desses pequenos pulmões verdes em meio à congestionada rotina das megacidades. Em Londres virou rotina vê-las conservadas por quem vive nas proximidades. Algumas praças têm até chaves e avisos de como obtê-las. Aqui há um longo caminho a ser percorrido. Deixar nas mãos de prefeituras e políticos, infelizmente, não tem sido solução. Tanto que muitas estão abandonadas à própria sorte. A desculpa é sempre a mesma, faltam recursos públicos. Nem ainda discutir que são mal aplicados. Portanto, soa alvissareiro o interesse da iniciativa privada em colaborar com praças públicas, ainda mais com essa pegada de cidadania.

Ninguém é ingênuo de achar que só boa vontade basta. Também ninguém imagina que seja tarefa fácil despertar as mais de 30 pessoas que na Praça da Vila Madá promoveram, com alegria, a limpeza, consertos de canteiros, plantios de novas mudas, reinstalação de equipamentos de lazer e de práticas esportivas, além de participarem da realização pinturas, cantorias e criações artísticas. Por que essa mobilização funcionou? Oras, porque há um encantamento desde priscas eras com a praça que ajuda a se percorrer o caminho entre o romantismo à praticidade. Todos os que se debruçam sobre a causa têm um ponto em comum: a praça é o local do encontro, uma espécie de microcosmos da vida urbana, onde se oferece diversão e descanso, se faz contatos ou simplesmente se vê o mundo passar. Não é pouca coisa, ainda mais num mundo tão individualista como a sociedade de consumo se tornou.

Por parte das empresas existe, indiscutivelmente, um interesse, é legítimo, de dar visibilidade à sua marca. Mas notam até os economistas e consultores que cresce a percepção que o “lucro social” ganha adeptos. Não basta dar rentabilidade para os acionistas. Empresas que se dão ao trabalho de construir marcas querem sobreviver no mercado e precisam de comprometimento com a sociedade. Tanto é assim que, no caso da Vila Madalena, os funcionários da GVT foram às reuniões preparatórias junto à comunidade local e depois arregaçaram as mãos juntos com os moradores na recuperação do lugar. Não basta apenas promover a ajuda financeira, prática muito difundida no passado no meio empresarial. Tem de participar. Validar o envolvimento com a causa e não se limitar a pendurar uma plaquinha com o nome da benfeitoria promovida. Essa é uma boa sacada dos novos tempos de convivência entre capital e trabalho.

GVT Praça1 Turma da GVT foto: Marcos Roma

A GVT escolheu as intervenções nos bairros em que atua comercialmente, o que fará com que abrace praças no Tatuapé, Santana e Santo Amaro até setembro deste ano. Todas estão em áreas aonde a operadora de telefonia construiu infraestrutura para oferecer serviços de internet banda larga, TV por assinatura e telefonia fixa. Já o Instituto Elos desenvolve desde há 14 anos metodologias de articulação comunitária, estabelecendo uma série de reuniões e trabalhos com as comunidades onde atua. Foi criado por um grupo de arquitetos urbanistas com o objetivo de “empoderar” pessoas para a construção de espaços com mais qualidade de vida.

Pode ser sonho singelo torcer para que uma praça pública seja apenas, e tão somente, uma praça cuidada. Mas, ao se envolver cidadãos com o ato de cuidar do que é de todos, a sociedade se apoderando do espírito público tão pouco cultivado entre nós. É um caminho para se construir cidades melhores. Por que não tentar?

É o humor, estúpido!

Myfancity

Soa estranho que convidados aleatoriamente a baixar um aplicativo em prol da cidadania, no qual podem atribuir cinco níveis classificatórios entre péssimo e ótimo, considerem somente o tema Vida Pessoal acima da média (58,09% dos cliques em bom e ótimo). Do universo amplo, geral e irrestrito em termos de idade, sexo e classe social que se dispôs a baixar o app gratuito MyFunCity e avaliar dez aspectos da vida na cidade em que moram, ninguém vê graça em nada. No atual momento político-econômico do País, impera a insatisfação plena com a vida pública. A salvação reside no microcosmo pessoal, só ali o humor do brasileiro vai bem. Saiu dali, dá-lhe bordoada!

Tema como Segurança somou entre cliques em ruim e péssimo 70,16% das avaliações negativas. O cidadão está com medo. Muito Medo. Basta ver que singelos 2,3% tiveram coragem de clicar em ótimo na questão da segurança. Devem viver em Berlim e talvez tenham esquecido como anda difícil a vida nas grandes cidades. Isso, pelo menos, a se considerar a espontaneidade da opinião digital, ao alcance de um deslizar de dedo, sem qualquer filtro ou termômetro interferindo no registro.

O Custo de Vida, com a inflação em alta e juros em ascensão, foi outro item avacalhado: 66,06% de cliques negativos. Percentual que, aliás, segue nos mesmos patamares para Vias Públicas (65,24%), Saúde (63,22%), Transportes (58,51%), Educação (53,95%), Limpeza (53,94%), Barulho (51,64%). Abaixo dos astronômicos 50% de rejeição somente o Lazer, que obteve 46,04% de cliques ruim e péssimo. E aí, em tempos de Copa do Mundo, pode se dar crédito ao futebol de várzea, que ainda garante alguma diversão a custo zero e capaz de apaziguar almas tão atormentadas.

Os dados divulgados fazem parte do relatório de tendências dos primeiros 20 dias de abril, compilados pelos fundadores do aplicativo MyFunCity, entre eles o administrador e publicitário Mauro Motoryn. A plataforma digital, criada há pouco mais de dois anos, foi premiada pela ONU justamente pela simplicidade com que estimula a cidadania, ampliando a voz da população. Entra para opinar quem quiser, clica nas alternativas por meio de ícones e, se ainda tiver vontade, pode escrever sobre os temas. Há essa alternativa para os usuários de smartphones (Android e iOS) ou na internet por meio do site MyFunCity. “Nos próximos meses também teremos condições de oferecer dados segmentados por rua e bairro”, explica Motoryn. “E, conforme esses relatórios ganharem massa crítica, poderemos extrair gráficos que vão influenciar as políticas públicas”.

Tomar o pulso das ruas é uma boa maneira de se precaver, tanto que a utilização das informações coletadas pelo aplicativo despertou a atenção de políticos. Vereadores de São Paulo já fizeram parceria para ter acesso aos dados. Nas próximas semanas, mais dez cidades do interior do Estado, como Campinas, Ribeirão Preto, Americana, São Bernardo e Santo André, estarão adotando o app. Com o pulso da população em tempo real, os políticos não terão desculpas para alegar desconhecimento do humor da população. No momento, não há dúvidas, a turma estaria motivada a voltar às ruas como em junho do ano passado. Ninguém seria surpreendido: É o humor, estúpido! Porque, com o tal do emprego garantido e a renda mantida, não seria a economia a atrapalhar, como na frase consagrada por James Carville, o estrategista eleitoral de ex-presidente americano Bill Clinton.

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